Comprar um elétrico usado não é igual a comprar um carro a gasolina. O motor quase não se desgasta. O que define o valor é a bateria, o carregador de bordo, a garantia que ainda resta e, se vier da Alemanha ou de França, os documentos para legalizar em Portugal.
Antes de transferires dinheiro, confirma estes 10 pontos. Se um falhar, ou renegocias o preço ou passas ao carro seguinte.
1. SoH da bateria, não a autonomia do painel
O SoH (State of Health) é a capacidade que a bateria ainda tem face à de fábrica. Um SoH de 90% num pack de 50 kWh úteis significa cerca de 45 kWh. A autonomia no ecrã mente: depende da temperatura, do estilo de condução e do último trajeto.
Pede um relatório, não um print do painel. Serve um teste da marca, uma leitura OBD ou um certificado AVILOO, DEKRA ou TÜV. O método passo a passo, marca a marca, está no guia AutoGo para verificar a bateria antes de importar.
Na prática, a AutoGo usa esta régua:
| SoH | Leitura | O que fazer |
|---|---|---|
| 94% a 100% | Excelente | Típico em carros de 0 a 3 anos |
| 86% a 93% | Normal | Comum entre 3 e 6 anos |
| 75% a 85% | Degradação visível | Só se o preço refletir a autonomia perdida |
| Abaixo de 75% | Risco | Não avances, salvo substituição ao abrigo da garantia antes da compra |
Pede também o histórico de cargas. Muitas cargas rápidas DC em autoestrada aquecem o pack e aceleram o desgaste, sobretudo em químicas NMC ou NCA. Baterias LFP, comuns em alguns Tesla Model 3 e em várias marcas chinesas, aguentam melhor cargas a 100%.
No test drive, sai com pelo menos 80% e faz 20 a 30 km mistos. A percentagem não deve cair de forma desproporcionada, e a regeneração tem de funcionar em descida quando a bateria não está cheia.
2. Garantia da bateria ainda válida, e transferível
A maior parte dos elétricos traz 8 anos ou 160.000 km de garantia na bateria de alta tensão, muitas vezes com um mínimo de 70% de capacidade. Não assumes que é igual em todas as marcas. Confirma no VIN, com a data da primeira matrícula, e pergunta se a cobertura vale na rede oficial em Portugal para o segundo dono.
Um carro de 2021 com 70.000 km ainda pode estar coberto. Um de 2017 com 180.000 km já não. Se o SoH estiver abaixo do mínimo contratual e a garantia ainda estiver ativa, a substituição ou reparação deve ficar resolvida antes de pagares, não “depois, em Portugal”.
Guarda o comprovativo por escrito. Numa importação à distância, isto vale mais do que a palavra do vendedor.
3. Como carrega, e a que potência
Na Europa o padrão é Type 2 em AC e CCS2 em DC. Um Leaf antigo só com CHAdeMO complica a vida na rede pública portuguesa. Confirma a ficha, não te fies na foto do anúncio.
Há três números que mudam o dia a dia:
- Potência AC de bordo: 7,4 kW chega para carregar de noite em casa. 11 kW é mais confortável se o quadro e a wallbox aguentarem.
- Potência máxima DC: define quanto esperas numa viagem Lisboa–Porto.
- Cabos incluídos: cabo Modo 3 (Type 2) e, se existir, o Modo 2 para tomada doméstica. Um cabo em falta são facilmente 200 a 400 euros.
Se vives em apartamento sem lugar com tomada, o carro barato na Alemanha pode sair caro em postos públicos. Faz esta conta antes de te apaixonares pelo anúncio.
4. Por baixo do carro
A bateria está no piso. Um impacto em lombas, um estacionamento sobre um lancil ou uma inundação pode danificar o pack sem acender luzes no tablier. Pede fotos do fundo, da tomada de carga e de sinais de reparação na cava da bateria.
Num carro alemão, um relatório de inspeção com o carro no elevador é o mínimo. Se houver amolgadura, corrosão ou fita de reparação no pack, não compres “para ver depois”.
5. Histórico, quilómetros e recalls
Elétrico não tem distribuição nem óleo de motor, mas tem revisões: fluido de travões, filtro do habitáculo, líquido de arrefecimento da bateria e atualizações de software. Pede o livro digital ou as faturas da marca.
Confere os quilómetros no painel, no histórico de serviço e, quando existir, num relatório de histórico pelo VIN. Uma queda súbita de SoH com poucos quilómetros é mais suspeita do que 120.000 km com SoH de 90% e manutenção seguida.
Verifica campanhas de recall em aberto. Algumas são de software. Outras são do pack ou do carregador. Um recall por fazer no país de origem pode atrasar a legalização ou a garantia.
6. Travões, pneus e bateria de 12V
A regeneração poupa os discos, e é por isso que eles enferrujam e colam. No test drive, trava a fundo uma vez em segurança. Se o pedal for esponjoso ou o carro puxar para um lado, orçamenta discos e pastilhas.
Os pneus de elétrico gastam-se mais depressa por causa do peso e do binário. Vê a data (DOT), o piso e se são pneus com índice de carga adequado. Quatro pneus novos num SUV elétrico passam facilmente dos 800 euros.
A bateria de 12V, a pequena, falha mais vezes do que o pack de tração. Se o carro tiver mais de 4 anos e essa bateria nunca foi trocada, mete a substituição no preço.
7. Software, extras e funcionalidades pagas
Alguns carros trazem bancos aquecidos, piloto automático ou conectividade atrás de uma subscrição. O anúncio diz “full extras”. Na prática, a função pode expirar com a mudança de dono ou de país.
Pede para ligares o carro, abrires a app da marca e confirmares o que está ativo. Atualizações por fim de garantia também interessam: um software antigo pode limitar a potência de carga ou esconder erros da bateria.
8. Autonomia real para o teu uso, não o número WLTP
O WLTP é de laboratório. No inverno, em autoestrada, no norte de Portugal, conta com menos. Um carro com 400 km WLTP e SoH de 88% pode ficar perto dos 250 a 300 km reais em viagem, consoante a velocidade e o aquecimento.
Faz a conta ao contrário. Quantos quilómetros fazes num dia normal, e qual é a viagem mais longa do mês? Se a resposta for “Braga–Lisboa sem parar no inverno”, precisas de pack grande e carga DC decente. Se for cidade e 40 km por dia, um compacto com SoH de 85% chega e sobra.
Bomba de calor ajuda no frio. Resistências puras comem autonomia em janeiro. Vale a pena confirmar no equipamento de origem.
9. Se for importado, documentos e impostos
Um elétrico 100% está isento de ISV em Portugal em 2026, novo ou usado, desde que a homologação seja mesmo de veículo exclusivamente elétrico. A isenção está explicada na página de ISV da AutoGo. Híbrido plug-in não entra nesta regra. Confirma a motorização no livrete, não na palavra “eco” do anúncio.
Os ligeiros 100% elétricos da categoria B também continuam isentos de IUC. Confirma o teu caso no simulador de IUC antes de comparares preços com um carro a combustão.
Para legalizar, o processo pede fatura, documento de registo estrangeiro, certificado de conformidade (COC) e depois inspeção para matrícula portuguesa. Sem COC, ou com uma versão não homologada para a UE, o carro pode ficar parado semanas. Isto pesa mais do que 500 euros de diferença no anúncio.
Na AutoGo a compra é feita em Portugal, com fatura nacional e garantia legal de 18 meses na venda direta. Não transferes dinheiro para um stand alemão e não ficas tu a tratar da papelada no IMT.
10. O preço só faz sentido com estes custos lá dentro
Compara sempre o preço fechado, não o preço do Mobile.de.
Soma, se estiveres a importar por tua conta: compra, transporte, inspeção, legalização, eventuais reparações da bateria de 12V, pneus, cabos e wallbox. Um elétrico bem comprado na Alemanha ou em França continua a sair mais barato do que o equivalente num stand nacional. Um elétrico com SoH fraco, cabo em falta e recall aberto não.
Se o vendedor recusar relatório de bateria, fotos do fundo ou comprovativo de garantia, essa é a resposta. Não é o carro.


